Vertygo – início

TRECHO DO ROMANCE: VERTYGO – O SUICÍDIO DE LUKAS

 

Até que uma ínfima curiosidade por desvendar a existência de alguma vida após a morte mostrava-se muito mais atrativo do que simplesmente viver […].

 

 

Domingo – 05h45min.

Morumbi, São Paulo – Brasil.

 

OS PRIMEIROS RAIOS de sol rompiam a barreira do cinzento céu paulistano, e penetravam pelas janelas daquele pequeno quarto e sala sem carregar mais consigo nenhum sinal de renovação. Ali dentro dele, trancafiado na solidão do seu mundo, Lukas de Castro, sequer havia pregado os olhos: mergulhado em morbidez de pensamentos lúgubres e envolto por uma angústia irremediável. Esmorecido, sem a mínima energia moral para erguer-se, decidiu, juntamente ao alvorecer, que trinta e três anos já havia sido tempo suficiente para nunca mais desejar experimentar novas sensações. Inexcitável, não sentia amor, cólera, libido, revolta, fé… Absolutamente nada! Exceto uma lancinante e invencível vontade de morrer.

À sua volta, nada mais parecia fazer o menor sentido: os diurnos comprimidos de Fluoxetina não triunfavam mais sobre uma renitente sensação de inutilidade; seus risos enferrujaram-se vagarosamente por uma apatia intolerante a tudo e todos; seus sonhos persistiam atrelados ao acaso, porque não mais encontrava forças para resgatá-los do destino; seus prazeres tornaram-se tão frívolos quanto as suas maiores ambições; seu entusiasmo ficou sequestrado em alguma parte do cérebro que desativou sua felicidade, e a simples tarefa rotineira de viver, tornou-se um estorvo tormentoso e penitente.

Entediado da vida e enfadado de si mesmo, doou-se integralmente ao ócio: deixou de lecionar antroponímia na Faculdade, acumularam-se poeiras em sua tão estimada coleção de Jazz, e nunca mais encontrara ânimos para acender seu cultuado cachimbo de roseira brava e piteira de Lucite da Sasieni. Também não reagia mais aos estímulos comuns: não se incomodava com os rotineiros latidos insuportáveis do cachorro de seu vizinho, tampouco se irritava com aquelas tantas correspondências lhe endereçadas erradamente. Afinal, àquela altura, chamar-se Lucas ou Lukas, tanto fazia. A letra K passara a ser uma tola vaidade, tão insignificante quanto a importância que creditava a sua própria existência. E se anteriormente gabava-se por seu primeiro nome originar-se do latim “luminoso”, agora não via mais nenhum tipo de brilhantismo em ser aquele homem opaco no qual havia se tornado. Muito menos encontrava um sentido coerente, ou uma mera coincidência etimologicamente cabível, capaz de justificar seu sobrenome Castro, derivar de Castru: um castelo fortificado de origem pré-romana. Em seu âmago violado, não experimentava mais ser alguém tão forte e luminoso assim.

Pávido ao pressentir com frialdade que matar-se seria a única saída capaz de extirpar de uma só vez todo aquele sofrimento, tentou até esboçar uma derradeira reação: levantou-se lentamente da cama, inspirou todo o ar que conseguiu, ergueu o tórax e a fim de ludibriar-se, disse em voz alta: Bobagem! Amanhã estarei bem melhor. Simultaneamente, pensou em seus pais com remorso, no fardo que aquele trágico acinte lhes causaria. Em seguida, imaginou o desapontamento que aquela catastrófica atitude causaria aos seus alunos mais próximos e bem quistos.

Por fim, incomodou-se um pouco ao deduzir que depois de tudo, muitos ainda o julgariam covarde diante daquela sua resignação premeditada. Contudo, nenhum ensaio introspectivo de restaurar o uso de suas faculdades conseguiria ressuscitar novamente a sua alegria: os ombros logo recaíram sobre a inércia do seu corpo, denunciando sua impotência diante da doença; a testa franziu espontaneamente e seu intento não conseguiu conter a gota de uma lágrima. Estava cronicamente depressivo e decidido a dar cabo na própria vida. Restava-lhe apenas a urgência e a frieza para elaborar de qual maneira…

Sempre fora sujeito calmo, tolerante e de raras confusões. Havia inclusive votado a favor da proibição do comércio de armas de fogo num determinado plebiscito. Agora, pela primeira vez, sentia-se arrependido por não possuir sequer um revólver: um tiro certeiro, bem no céu da minha boca… Ou melhor: na parte inferior de um dos meus tímpanos para atingir o meu nervo auditivo, cessaria de vez esse sofrimento. A parti pris desagradava-lhe a ideia de cortar os pulsos e sangrar sozinho até morrer: seria lento e agonizante por demais! Provavelmente, já morto, após certo tempo, meu corpo entraria em estado de putrefação. Em seguida, terminaria incomodando toda a vizinhança com meu mau cheiro. Não! Isso nunca! Sou digno demais para morrer apodrecido.

No primeiro impulso, chegou a debruçar-se sobre as janelas. Mas, analisando e medindo a distância do quarto andar de seu apartamento, até o tapete da entrada principal do prédio, prudentemente titubeou: talvez não seja alto o suficiente. Corro o sério risco de sofrer fraturas, entorses ou lesões. Terminar depressivo numa cadeira de rodas seria um drama infinitamente mais penoso. Isso sem contar que ficando tetraplégico, provavelmente jamais conseguirei matar-me (…).

(…) Ficarei impotente, limitado e à mercê de uma eutanásia que, nem mesmo concedendo autonomia plena, assinando termos, ou implorando ao médico mais irresponsável, aplicar-me-iam uma injeção intravenosa de Tiopentato de Sódio, para sedar-me, seguida por uma dose de Brometo de Pancurônio, fazendo relaxar meus músculos e paralisando meu diafragma e pulmões, e, finalmente, fariam cessar meus batimentos cardíacos, com uma porção derradeira de Cloreto de Potássio. Aí sim, eu teria uma morte condizente ao sentido da palavra de origem grega, eutanásia (eu = boa e tanatos = morte). Mas, qual médico compactuaria com isso? Obviamente nenhum! Sobretudo, após declarar solenemente aquele estúpido trecho do tradicional juramento de Hipócrates: “(…) A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda (…)”refletiu e decidiu não arriscar.

Porém, passados longos instantes, delirando sobre as mais extraordinárias estratégias de matar-se, configurando mentalmente desde o medievalismo do enforcamento à colocação duma mangueira na boca com sua outra extremidade acoplada ao cano de descarga do seu carro, passou a planejar algo menos agressivo e mais indolor: tomarei de uma só vez quatro caixas de Clonazepam com o resto que sobrou dos Escitaloprans. Provavelmente assim, terei uma overdose com a perda da consciência lentamente, antes de fechar meus olhos para sempre. Pronto! Será perfeito! Não pareceria tão dramático como cortar os pulsos, não sujaria toda a casa com sangue, e meu corpo permaneceria devidamente intacto para o velório.

Entretanto, mesmo aparentando-lhe ser esse o modo mais apropriado, e possivelmente o menos sofrível, também hesitou. Recordou-se que havia lido certa vez sobre suicidas que teriam se arrependido minutos depois do ato. Conscientizava, inclusive, que precisava fazer uma só vez e bem feito. Pois sabia que para cada suicídio cometido com êxito, existiam dez tentativas frustradas: e se por um breve momento de sobriedade, eu me arrependa por sei lá o que? Seria humilhante demais chamar alguém para levar-me até uma emergência hospitalar. Certamente, não deve ser nem um pouco agradável ou prazeroso, fazer lavagem estomacal para retirada forçada dos comprimidos ingeridos. Não! É a primeira vez que tento me matar. Pretendo fazer bem feito, sem arrependimentos e preferencialmente sem incomodar a ninguém.

Devaneando em meio a intermináveis ideias fúnebres, uma inusitada pergunta fora capaz de intrigá-lo, trazendo-o brevemente a tona por alguns instantes de lucidez: o que irá acontecer com as faturas do meu cartão de crédito quando eu partir dessa pra melhor? E aprisionado nesta incerteza como a única alegria pelas poucas horas que antecediam a sua morte, decidiu prontamente, que merecia – ao menos – um final apoteótico.

 

Y Y Y

 

Parcialmente empolgado, tocou a arquitetar, meticulosamente, tudo que faria ao decurso daquele dia – decretado por ele mesmo como último. Redescobrindo, estranhamente, na consecução do seu suicídio, uma única razão sóbria para animar-se: hoje me permitirei ser feliz! Extravasarei nas compras, estourarei o limite dos cartões, comerei do bom e do melhor e depois me lançarei do andar mais elevado de um luxuoso hotel. Morrerei com dignidade, refinamento e requinte.

Contentando-se por nada, satisfez-se momentaneamente, apenas por morrer com a mesma idade de Cristo. Afinal, já seria algo glorificante e significativo para um professor aficionado por história. Em seguida, passou a fazer novas analogias da sua morte – por conta própria – com diversos fatos históricos. Recordou instintivamente de algumas aulas que havia ministrado sobre suicídios celebres: relembrou-se dos haraquiris, dos kamikazes, de Aníbal, Cleópatra, Códio e Amílcar. Mas, diferentemente de todos aqueles, o professor De Castro – como também era conhecido – não faria por orgulho, ideologia, muito menos por amor. Dar-se-ia fim, porque, redescobriu no infortúnio pós-vida, a única maneira de exterminar de vez e para sempre aquele sofrimento. Ainda assim, no sigiloso íntimo de seu ego, resquícios de vaidade clamavam por um pouco de glamour no seu final. Não ambicionava partir assim ao léu, como um João ninguém invisível da Silva ou um figurante de novela de quinta categoria. Almejou ficar marcado de alguma maneira.

Decidido, iniciou, vagarosamente, uma espécie de liturgia pessoal de autofenecimento: arrumou a cama, estirando os lençóis como nunca; lavou as louças, que se empilhavam na imundice da cozinha; varreu cada canto da casa com primazia; tomou uma ducha quente; fez a barba depois de duas semanas; penteou os cabelos; escovou os dentes e deixou a secretária eletrônica ligada com o seguinte recado: “você ligou para Lukas de Castro. Nesse exato momento não estou, e, provavelmente, nunca mais estarei. Mas, por favor, não se preocupe, para onde pretendo ir agora, certamente estarei bem melhor do que aqui. Ah! Também não aguarde o retorno dessa ligação, de lá não terei mais como lhe telefonar. Obrigado!”. Soaria esdrúxulo e até bastante enigmático para quem ouvisse, mas foi realmente tudo o que ele desejou registrar no último recado da sua secretária eletrônica.

Em seguida, apanhou na estante seu CD predileto de Billie Holiday, colocou premeditadamente a canção Please Don’t Talk About Me When I’m Gone, e a programou no aparelho para tocar por cinco dias sequenciados. Assim, quando alguém fosse resgatar seus pertences ali dentro, ainda estaria repetindo aquela apropriada faixa quinze. Vestiu-se com roupas escuras, a fim de exibir o seu próprio luto, colocou pouco perfume, calçou sapatos pretos e reuniu numa carteira de couro, todo o dinheiro em espécie que tinha, junto aos tantos cartões de créditos que possuía. Até aqueles que nem sequer utilizava, filiava-se apenas como fugaz estratégia para livrar-se rapidamente das insuportáveis vendedoras de crediários por telemarketing. Antes de deixar a sua casa, entretanto – demonstrando a contradição exacerbada da frenética insensatez de um suicida entre os confins de suas faculdades mentais racionais, escreveu a punho e atordoado o seguinte missivo:

Aos meus pais,

Provavelmente, se de alguma maneira, chegarem a ler esta carta, é sinal de que talvez eu não mais esteja entre vocês. Não espero que compreendam aquilo que nem mesmo eu consigo entender. Espero apenas que, de alguma forma, algum dia, possam apenas me perdoar por isto. Afirmo, ainda no uso de minha sobriedade, e diante da minha mais absoluta lucidez, ter enxergado no sofrimento que lhes causaria o único motivo coesivo de protelar esta decisão. No entanto, nos últimos dois ou três dias, fui possuído inteiramente por uma repentina e inexplicável vontade de morrer.

Não sei exatamente os motivos oriundos, nem sequer se eles existiram de fato. Não sei em qual momento ou por qual razão, mas, a verdade é que, há muito tempo, venho findando aos poucos. Perdi o ânimo, a razão e o motivo de continuar vivo. Tentei reagir, lutar, tomar medicamentos fortíssimos, mas, não consigo enxergar remotas possibilidades de melhora. Sei que amanhã vai ser tudo cinza novamente, e que nada vai arrancar de dentro de mim, essa angústia, esse vazio, essa dor, esse sofrimento. Por favor, perdoem-me! Não suporto mais viver com a morte tão latente dentro de mim.

É estranho, mas quando se pressupõe a própria morte, tornarmo-nos muito mais reflexivos. Somente hoje, sou capaz de sentir com exatidão o quanto lhes amo. Somente hoje a fala não mais me calará. Hoje não terei vergonha de repetir: amo vocês. Somente hoje, consigo enxergar através do orgulho, egoísmo ou vaidade o quanto vocês fizeram por mim. Muito obrigado por tudo e me perdoem!  Desejo que fiquem com a posse deste apartamento, do meu carro, e de todos os meus pertences. Avisem para Beatriz, que ela foi meu único e verdadeiro amor. Avisem na universidade, aos meus alunos e amigos. Quero todos no meu velório. Por favor, não deixem que me chamem de fraco ou covarde! E mais uma vez, perdão.

Com todo amor que nem me resta,

Adeus

Lukas de Castro

 

Y Y Y

 

Tomado por uma comoção amargada de culpa, beijou a carta, colocando-a cuidadosamente abaixo do aparelho de som – que naquele instante repetia a faixa quinze pela sexta ou sétima vez. Levantou-se da cama, deu um suspiro profundo e fitou pela última vez o seu diminuto mundo – tão reduzido e pequeno quanto aquele apartamento: seu canto do sofá preferido; seu bar com algumas garrafas de bebidas; as provas do semestre passado, que por desânimo, jamais corrigiria; as caixas de antidepressivos e ansiolíticos jogadas sobre uma das cômodas, sem mais nenhuma funcionalidade; os porta-retratos, ilustrados com fotos duma saudosista infância que não mais voltaria; o insignificante travesseiro, porém fiel companheiro da solidão; o apreciado cachimbo de Lucite; a adorável coleção de Ella Fitzgerald, Billie Holiday, e Dinah Washington; os livros que não mais tornariam a serem abertos, enfeitando a estante de mogno… E sem cogitar – sequer por instantes – a possibilidade de desistir daquela obsessiva intenção, bateu a porta com força e trancafiou ali dentro para sempre, parte da sua história e todo o seu passado. Matando-se assim pela primeira vez naquele domingo.

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