TDA

O TDAH é uma disfunção mental ou social?

Estudos indicam que o TDAH está associado a uma alteração no funcionamento de neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina), na estrutura subcortical frontal do cérebro. Essa alteração, normalmente desencadeia comportamentos ligados a inquietude, impulsividade e/ou desatenção. Portanto, se considerarmos disfunção como sinônimo de alteração, podemos dizer que no TDAH ocorre uma disfunção mental que inevitavelmente vai gerar uma disfunção social. Todavia, ao falarmos sobre transtornos psiquiátricos, o uso do termo disfunção mental é muitas vezes confundido com retardo mental, mais comum nos casos de Distúrbios do Espectro do Autismo.

Mas, há um retardo no aprendizado das crianças com os transtornos?

Na verdade, elas apresentem variações normais das aptidões intelectuais. Existe sim, uma inconstância da atenção: maior dificuldade para sustentar a concentração em atividades longas, complexas, obrigatórias e repetitivas. Já com atividades que lhes despertam maior interesse, ou quando se sentem desafiados, são capazes de atingir um elevado nível de concentração, denominado de hiperfoco. Inclusive, um estudo publicado no Journal of Personality and Individual Differences indica que pessoas com TDAH normalmente são mais criativas do que aqueles que não têm o distúrbio. No entanto, além da instabilidade na atenção, 20% a 30% das crianças diagnosticadas com TDAH também apresentam comorbidades (coexistência de dois ou mais transtornos) de Distúrbios de Aprendizagem: dislexia, disgrafia, disortografia, discalculia, dislalia etc.

O TDAH é hereditário?

Estudos comprovam que tem alta herdabilidade. 70% dos pais acabam sendo diagnosticados junto com os filhos.

Como identificar uma criança com o transtorno?

Primeiro é necessário afastar qualquer possibilidade de problemas auditivos ou visuais que muitas vezes confundem o diagnóstico para TDAH infantil. Depois é importante também diferenciar quadros de transtornos de ansiedade generalizada que acontecem muito na infância. É preciso ainda ter consciência que todo quadro de hiperatividade desencadeia um transtorno de atenção mas nem todo transtorno de atenção vem juntamente com a hiperatividade. Então é mais fácil identificar uma criança com TDAH do que com TDA.

Normalmente o TDAH é identificado pelos pais ou por quem está de fora?

Primeiro os pais veem que seus filhos têm algo diferente. Mas preferem acreditar que é mais um problema de questão social. Eles têm resistência em aceitar que é um problema que nasceu com seu filho. O professor, que vê a criança em grupo, percebe logo a diferença no comportamento e é normalmente quem alerta a escola e os pais. Os pais normalmente só recorrem a um especialista quando ele vê que seu filho está se afundando em problemas e sofre com a rejeição dos colegas. Até então, eles preferem acreditar que educaram errado. Mas, quando uma mãe tem o diagnóstico é muito complicado. Ela ter que dar ao seu filho remédios de tarja preta é muito difícil.

Quem tem o distúrbio precisa usar medicamentos pelo resto da vida?

Em 65% dos casos, sim. Mas eu costumo dizer que conhecer melhor o assunto e a si mesmo é mais funcional do que qualquer medicamento prescrito. Dessa forma, uma pessoa com TDAH pode analisar as vantagens e as desvantagens no tratamento medicamentoso e inclusive avaliar se há necessidade de tomar remédios continuamente ou há possibilidade de suspendê-lo, por exemplo, nos fins de semana.

A escola e os professores estão bem preparados para identificar uma criança com TDAH?

Diante de tantas informações disponíveis e do número cada vez maior de crianças em salas de aula com TDAH, acredito que os profissionais da educação – ao menos em sua grande maioria – saibam identificar crianças com traços de TDAH. Ainda assim – por impaciência, desinteresse ou omissão – eles priorizam subterfugir da tentativa de educá-las com a praticidade de qualificá-las apenas como mal-educadas. Existe aproximadamente uma criança com TDAH em cada sala de aula com 20 a 25 crianças. Conscientes de que a inserção dessas crianças demanda uma porcentagem grande no tempo do professor, além de propiciar uma maior dispersão da turma, as instituições de ensino aceitam apenas matriculá-las sem o comprometimento de ensiná-las. Então, as escolas nunca vão estar preparadas, porque não vão deixar de atender 20 alunos “normais” para atender dois com hiperatividade ou déficit de atenção.

O que um professor pode fazer por uma criança com TDAH?

Ele deve ter um olhar diferenciado porque as crianças com o transtorno têm ideias maravilhosas, mas não conseguem estruturá-las, porque o pensamento é muito rápido então elas nunca serão consideradas inteligentes com este tipo de avaliação que ainda existem nas escolas, de forma cristalizada. Elas dificilmente terão sucesso dessa maneira, porque a forma de elas raciocinarem é genial mas é desorganizada. Cito aqui o Dr. Paulo Mattos: “O sistema educacional tradicional penaliza muito quem tem TDAH, pois exige que os alunos permaneçam quietos (em geral sentados em carteiras desconfortáveis), que sempre sigam todas as regras, que mantenham a atenção por horas seguidas e que sejam avaliadas por provas monótonas e sem permissão para interrupções. Sem falar nas matérias chatíssimas e coisas sem sentido que nos ensinam nas escolas. O resultado disso são advertências constantes, desenvolvimento baixo, mesmo quando o aluno se esforçou. O importante é não confundir incapacidade de fazer o correto com a falta de desejo de fazer o correto”.

Hoje se fala muito em bullying. As crianças com TDAH sofrem muita rejeição?

Comumente, em virtude de seus comportamentos atípicos, crianças com TDAH são rotuladas com os mais variados apelidos: agitado, lento, esquecido, bagunçado, desobediente, palhaço, falador, endiabrado, viajandão etc.. Todavia, é importante ressalvar que o TDAH pode se manifestar de diferentes maneiras e graus de comprometimento em cada pessoa. Além disso, o TDAH encontra-se subdividido em três subtipos: Tipo Combinado, Tipo Predominantemente Hiperativo-Impulsivo e Tipo Predominantemente Desatento. Por conseguinte, independente da existência de um transtorno, cada criança vai reagir de forma desigual em relação aos apelidos. Essa reação se diferencia ainda mais pela sua vivência, juntamente com a sua subjetividade que formam a sua interpretação do mundo.

Marcus Deminco é escritor, Doutor Honoris Causa em Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (Brazilian Association of Psychosomatic Medicine), professor de Educação Física, tutor de Programação Neurolinguística e graduando em Psicologia.

 

Fonte: 13230940821_a.png

 

http://www.colegiocqb.com.br/noticias.php?pagina=5&id=319

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