DDA – DISTÚRBIO DE DÉFICIT DE ATENÇÃO

Por Louise Cibelle

“É preciso ter audácia para pular os muros das adversidades”

O escritor Marcus Deminco, 31 anos, pode dizer que já fez um pouco de tudo. Ex-modelo, professor de educação física, estudante de psicanálise e de psicologia, encontrou na literatura uma maneira de diminuir a hiperatividade. Desde criança sentia que era diferente das outras pessoas e chegou a duvidar da sua capacidade intelectual, foi então que descobriu o DDA. Marcus não só aprendeu a lidar com o distúrbio em sua vida, como também teve a idéia de escrever um livro sobre o assunto com o intuito de ajudar outras pessoas. O livro teve repercussão, chegando a ser vendido para outros países, e o resultado disso é que “Eu e meu amigo DDA” é só o primeiro de três livros lançados pelo autor.

 

O que é o DDA?

MD – Ironicamente, seria a tentativa injusta dos especialistas de resumir uma pessoa inquieta, desatenta e impulsiva, em três míseras letras (risos). Por sorte, atualmente, ganhamos, ao menos, mais uma letra. Já que o termo mais apropriado hoje em dia é o TDAH: Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade. Na verdade, o DDA ou TDAH, é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e na maioria dos casos, acompanha a pessoa, por toda vida. Juntamente com a dislexia, é o distúrbio de aprendizado mais comum no mundo. Estima-se que, apenas no Brasil, entre adultos e crianças, mais de seis milhões de pessoas tenham essas singularidades comportamentais e cognitivas.

 

Como você percebeu que era uma pessoa diferente?

MD – A interação social, o contato com outras pessoas é a primeira noção que temos de parâmetros. Desde muito cedo, sentia que algo dentro de mim não funcionava muito bem. Ou pelo menos não seguia o mesmo ritmo vagaroso (para mim) dos outros. Eu queria voar, enquanto meus colegas se conformavam em jogar bola, eu queria estar em três lugares ao mesmo tempo, enquanto todos brincavam de estátua, a brincadeira mais torturante para um irrequieto. Enfim, eu queria o impossível e o infinito. Eu era um peregrino sonhador. Aliás, quanto a isso, devo admitir também, que pouca coisa mudou.

 

Em algum momento o TDAH atrapalhou a sua vida?

MD – Eu pareceria dramático se lhe dissesse que sim, no entanto, eu seria mentiroso se afirmasse que não. Estudei numa época na qual nada disso era notório. As crianças hiperativas eram vistas como mal educadas. E no meu caso, além do déficit de atenção eu tenho uma acentuada dislexia na escrita. Por conseguinte, a minha trajetória acadêmica beirou a tragédia: eu construía redações com idéias incríveis, escrevia dissertações mirabolantes e sempre esperava notas ótimas. Mas, os professores cortavam pontos de minhas palavras incompletas, tiravam décimos por cada troca de letras, e reduziam minhas avaliações por outros lapsos desse tipo. Que, aliás, poucas vezes eram realmente erros ligados ao aspecto gramatical. Contudo, em momento algum, eu culparia esses meus professores. De fato, o TDAH, tal qual a dislexia e uma série de problemas de aprendizado, vieram a ser mais difundido somente há alguns anos.

 

Você faz uso de algum tipo de medicamento? Como é o tratamento?

MD – Eu costumo dizer que o conhecimento minucioso sobre o assunto é mais funcional do que qualquer medicamento prescrito. Faz-se necessário – e igualmente proveitoso – conhecer o distúrbio. Somente então, dotado de mais esclarecimento, a pessoa com TDAH deve analisar as vantagens e as desvantagens no tratamento medicamentoso.

 

A sua rotina é diferenciada?

MD – A minha o quê? Você disse rotina? Acho que de maneira espontânea, desde quando comecei a escrever todos os dias, inconscientemente, eu rasgava aquele tratado previsível e enfadado do cotidiano. Sem intento de vangloriar o ato de criação – até porque é demasiadamente tormentosa a consecução inteira de um livro – acredito que permeio a magia e o sofrimento de parir histórias através das letras, desfrute-se de duas vidas paralelas.

 

Como surgiu a idéia de escrever Eu e meu amigo DDA?

MD – Na verdade, infelizmente ou felizmente, idéia é algo que nunca me faltou. Eu e meu amigo DDA, foi no começo uma vontade de desabafar, de compartilhar, de ajudar outras pessoas. Depois, virou um grande desafio pessoal. Afinal, eu precisava testar os limites impostos pelo distúrbio, e concluir projetos, sobretudo, aqueles mais duradouros, é considerados o maior obstáculo na vida de muitos TDAHs. Normalmente, o portador de déficit de atenção é também marcado pela inquietude de fazer mil coisas ao mesmo tempo, e por abandonar tarefas incompletas, migrando em busca de novos feitos. Na maioria das vezes, por conseqüência desses embaraços, tornam-se adultos frustrados. Então, sabendo de tudo isso e estudando compulsivamente o transtorno, eu via duas únicas opções: continuar escrevendo ou sucumbir derrotado. Terminei, portanto, o meu primogênito. Ainda sem saber que a literatura seria uma escolha irregressível em meu caminho.

 

A que você atribui o sucesso do livro? Você acha que, de certa maneira, as pessoas compram por ser um assunto que está na moda?

MD – Indubitavelmente, o livro não vendeu pelo autor. Quanto a isso, eu não me iludo. Ainda não sou o Saramago. Sei, porém, o quanto a temática TDAH e Dislexia são altamente comerciais. Além do mais, Eu e meu amigo DDA é a primeira obra autobiográfica sobre esse assunto. O livro foi todo feito de maneira independente, e mesmo restrito às encomendas por internet e comercializado somente nas livrarias baianas, teve uma aceitação surpreendente, com livros enviados até para outros paises. Vale à pena conferir na comunidade com o título do livro, no site de relacionamentos Orkut, onde, além de vender o livro, cerca de mil pessoas, participam ativamente trocando informações e experiências sobre o TDAH.

 

Sabemos que, além de Eu e meu amigo DDA, você tem mais dois livros. Você acha que o fato de ter o distúrbio contribuiu para as outras produções?

MD – Fiquei praticamente quatro anos curvado à literatura. Pouco saia de casa. Emendei a biografia com um romance, e há pouco tempo, depois de um ano e mais alguns meses que sequer notei passar, inteirei um realismo fantástico sobre Helen Palmer – um pseudônimo utilizado por Clarice Lispector em 1959. Hoje tenho um agente literário negociando esses três livros com as melhores editoras do Brasil. Não sei., talvez o fato de ter DDA me ajude muito no aspecto criativo e me embarace um pouco na elaboração. Contudo, quero deixar claro que ter TDAH não é sinônimo de ser prodigioso, do mesmo modo como não vem a ser atestado efetivo de estupidez. Todos vivem dentro de limites: barreiras genéticas, sociáveis, culturais. Enfim, é preciso ter audácia para pular os muros das adversidades ou a passividade dos covardes para aceitar ser mais um.

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